Dietas, tentações e bacon

No Barquinho julho 10, 2017 0

Quem não tem problemas em manter o peso ideal, não compreende as tentações que certas guloseimas causam na pessoa que carrega a dura cruz da dieta.

Eu trabalho em uma empresa de ônibus aqui em Chapadão do Sul, e minha agência fica bem em frente da cantina. Durante todo o dia eu tenho que lidar com o cheiro de salgados sendo assados, e fornadas de pão de queijo soltando aquela fumaça em forma de coração desfilam diante de meus olhos.

Além dessa tortura à distância, durante o dia eu preciso ir à cantina, seja para conversar com algum motorista que está lanchando, ou mesmo para conseguir um dinheiro trocado. Claro que nessas ocasiões sempre, SEMPRE, tem algo tentador à venda.

Certa tarde, após encerrar o expediente, passei por lá para comprimentar alguns amigos ali reunidos, quando percebi que algo sensualizava de dentro da estufa. Era um salgado que parecia recém tirado do forno, tamanho generoso, parecia muito apetitoso. O rapaz que estava atendendo, percebendo meu interesse (provavelmente eu estava salivando diante do vidro), disse que era um novo salgado de bacon que eles estavam fazendo.

Parafraseando Gênesis, aquilo se tornou agradável aos olhos e desejável para se comer. Como eu poderia julgar Eva? Lá estava eu, a um passo de quebrar meu regime. Eu estava com fome? Na verdade não, bastava sacudir um pouco a minha mochila para sentir o pacote de bolacha integral que trago para enganar o estômago.

Mas eu tinha que comer aquilo!

O desejo abre a gaveta das desculpas prontas em nosso cérebro: “É só uma vez, você tem se esforçado na dieta”; “Hoje o dia de trabalho foi tão duro, você merece se dar essa recompensa”; “Depois fazemos uma sessão de caminhada a mais na semana”. Basta ouvir uma dessas lorotas para os argumentos se tornarem mais maliciosos: “Cara, é bacon! Bacon é vida!”, “Não tem como algo com bacon e queijo ser ruim!”

Antes que eu pudesse ao menos recordar do regime, o salgado de bacon e uma Coca-cola estavam diante de mim, prontos para serem consumidos.

No entanto, bastou a primeira mordida para perceber que havia algo errado com meu salgado. Ele estava duro, como se tivesse sido aquecido por mais de uma vez. Ainda bem que eu estava com um refrigerante para ajudar a descer aquela primeira mordida afoita. No final da história, joguei fora boa parte daquele engodo disfarçado de delícia.

Bom, nesse ponto eu creio que devo refutar uma afirmação que fiz no início do texto. Após essas analogias com tentação e pecado, fica evidente para qualquer um, inclusive os magricelos, a luta que travamos para manter a bendita dieta.

Também fica evidente a velha tática da concupiscência. Tiago em sua epístola deixa bem claro esse modus operandi:

“Bem aventurado o homem que suporta, com perseverança, a provação; porque, depois de ter sido aprovado, receberá a coroa da vida, a qual o Senhor prometeu aos que o amam. Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria concupiscência, quando esta o atrai e seduz. Então, a concupiscência, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte”. Tiago 1.13-15 (Grifo nosso).

Na sua versão bíblica pode estar traduzido como cobiça ou desejo, são palavras diferentes para aquela mesma vozinha do “não tem problema”, “não é bem assim”, “não seja tão rigoroso consigo mesmo”.

Muitas pessoas acreditam que, diante das tentações, temos um anjinho e um diabinho nos ombros, tentando influenciar as nossas decisões. Assim, quando vacilamos cedendo aos seus desejos, tentamos escapar com desculpas do tipo: “É, acabei dando lugar ao Diabo”. Se você tem esse costume, quero te dar uma notícia no mínimo alarmante:

Seu “Diabo” é você!

Vamos voltar à minha história para exemplificar. Eu compreendo que uma dieta balanceada é necessária para uma melhoria na minha saúde. Então, surge uma tentação exterior que desperta algo interior. Uma vontade transgressora e auto destrutiva. Perceba que a concupiscência é ardilosa, ela não ultrapassa os limites do nosso bom senso. É muito mais fácil ela me convencer a quebrar uma dieta com um salgado, do que com um copo de veneno, por exemplo.

Paulo nos alertou dizendo que o pecado desperta a concupiscência em nós através do conhecimento dos mandamentos de Deus (Romanos 7.8). Ou seja, sempre que algo tentador chamar a sua atenção, a SUA concupiscência vai despertar, e tentar te induzir ao pecado. e VOCÊ poderá ser seduzido por ela.

É por isso que muitas pessoas passam anos sendo reincidentes nos mesmos erros, nos mesmos pecados, chegando ao ponto de se decepcionar, por pensar que “Deus permite que o Diabo sempre me humilhe”. Estão tentando achar respostas fora, para um problema que é interior.

Durante toda a nossa vida estaremos sujeitos a tentações, esse é um fato inquestionável. Não adianta tentar escapar para um lugar deserto, se isolar de qualquer influência ou afastar tudo que considera bom e prazeroso. A concupiscência possui uma criatividade incrível. Sendo assim, como é possível enfrentar tamanha influência?

“Bem aventurado o homem que suporta, com perseverança…”

Perseverança é a palavra.

Para manter um regime é preciso perseverar na dieta. Para manter seu emprego é preciso perseverar em aplicação e eficiência. Para manter seu casamento é preciso perseverar em amor e companheirismo, Para manter uma vida espiritual sadia é preciso perseverar em vigiar e negar ao pecado.

“Vigiai e orai, para que não entreis em tentação; o espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca” (Mateus 26.41).

Assumir nossas fraquezas é o primeiro passo para a vigilância. Se eu exagero no chocolate, tenho que evitar a gôndola de doces no supermercado. Não adianta repreender o Diabo ou oração digna de monte pentecostal diante de uma travessa de brigadeiros. Nesse caso, devemos usar a estratégia do leão da Montanha: Saída estratégica pela direita! Sebo nas canelas!

Claro que exercícios espirituais são eficientes e ajudam a estruturar nossas defesas. Oração, leitura bíblica, e até mesmo jejuns são ferramentas poderosas para diminuir o volume da voz e a influência da concupiscência. Sempre lembrando a cada manhã da necessidade de renovar a perseverança em vigiar.

E por fim, vale ressaltar que o pecado maquia coisas horríveis com aparência de prazerosas. Mas que no final te proporcionam uma experiência dura e difícil de digerir.