À Deriva #32 – Sábado 14

No Barquinho junho 3, 2016 4

SÁBADO 14

Faltava meia-hora para o término do turno no escritório. José já contava os segundos para ir pra casa e lutava contra o sono daquela noite. “Diazinho mais sem-graça” pensou olhando para as planilhas preenchidas no computador.

“Bom término Zé!” gritou Mateus, o último funcionário a sair. “E vê se toma cuidado hoje hein, é sexta-feira 13 hahahaha”
José riu com a piada do colega mas se sentia estressado demais para responder sarcasticamente.

Para espantar o sono resolveu ir ao banheiro. Urinou no mictório e lavou as mãos com lentidão. Se abaixou para molhar o rosto mas antes de olhar seu reflexo sentiu os pelos da nuca se eriçarem. Tomou um susto quando olhou seu rosto envolto em palidez.
“Cara, esse emprego tá me matando mesmo…”

“Mais uma hoje. Que tal hein?”

Os vinte minutos seguintes no computador passaram rápido e concluiram mais uma jornada quando passou pela catraca da empresa.

“Uma só cara. Dá nada…”

O bar estava lotado de funcionários da empresa de telemarketing que fica ao lado. Pagode no último volume. Bebidas à vontade.
Mas é a visão do vulto negro saindo do estabelecimento que coloca os pés de José em movimentos trôpegos e desesperados na velocidade.
José parou para respirar já muito longe da empresa. A área residencial era nova para o paulista-natural.
“Onde raios fui parar?”

Olhou para frente e na calçada um grupo de meninas, provavelmente adolescentes, andavam apressadas mas olharam com sorrisos para o jovem que costumava malhar regularmente.
“Vai lá José. Dá nada cara. VAI!”

José evitou os olhares e seguiu em frente num passo acelerado.
“Um ponto de ônibus. Qualquer coisa…”
Sentia dedos frios puxando sua cabeça para trás levemente. Empurrou o vulto negro e saiu em disparada.

“Não pode fugir”

José sentia as garras o alcançando. Sentia que aquela sexta-feira 13 seria a última de sua vida. O monstro crescia e crescia em sua direção e de soslaio podia ver sua silhueta disforme se formando em seu maior terror. Correu, correu mas a queimação nas pernas era insuportável.
Tropeçou e encarou o monstro de frente.

“Não pode fugir de mim”

José chutou. Socou. Se remexeu ainda suspenso pela garra da sombra. Evitou os olhos do monstro a todo custo mas quando o cansaço o tomou era impossível não reconhecer: “N-Não…NÃO!!!” gritou e se libertou jogando o corpo para trás.
O impacto das costas com a rua arrancou o ar de seus pulmões mas o recuperou a tempo de continuar correndo.

Entrou de rompante no primeiro prédio a vista quando ouviu os gritos estridentes do seu algoz. “É um pesadelo. Só a droga de um pesadelo” disse a si mesmo puxando os cabelos com violência. Bloqueou a porta com algumas cadeiras e pedaços de madeira que encontrou.

“É uma igreja” Percebeu somente quando boa parte da porta estava imersa em madeira e bancos. A igreja tinha um interior grande o suficiente para abrigar muitas pessoas. “Mas justo aqui eu fui fugir?” sentia a ironia de sua morte como um gosto amargo na boca.

“ENTÃO É AQUI QUE VAI ME MATAR?” José não sabia se gritava para o monstro ou para o próprio Deus. Era surreal. Quase onírico.
Mas era extremamente assustador a possibilidade de que a qualquer instante estaria agonizando e sangrando até sentir os batimentos cessarem.
Podia sentir o coração perdendo forças. Os músculos retesarem. A barra de ferro perfurando seu peito.”Quando que ele…” cuspiu sangue e olhou para o tentaculo que segurava a arma. A visão de sombras, o rosto de José em trevas e inúmeras garras, tentaculos, chifres e braços.

“Não podes escapar de teu coração”

José ergueu os olhos para o vitral quebrado e consequentemente para as estrelas. “De onde virás…”. Suspirou, cuspiu mais sangue e seu coração deixou de bater.
A canção acompanhou seu sono.

José acordou com o sol em seu rosto. O sangue havia estancado e a barra de ferro estava ao seu lado, colocada de forma paralela ao seu corpo no chão. Em posição fetal, José tentou se erguer. Sem sucesso.
Havia quebrado os cinco anos de abstinência do álcool na noite passada e se perdido por conta da embriaguez. Podia ver o vômito na camisa e calça social.

Chorou e pediu perdão olhando para o alto.

“O meu coração está acelerado; os pavores da morte me assaltam.
Temor e tremor me dominam; o medo tomou conta de mim.”

A canção aumentou de volume.

Sábado 14.

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Texto “Sábado 14: Isaac Moreira
Voz de: Chico Gabriel
Edição e masterização: Chico Gabriel
Arte da vitrine: Chico Gabriel

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  • Lourival Gonçalves

    uuaaauuuuuu!!Um dos Melhores que Já Ouvi.Podemos ser a próxima vítima?
    ,Assim, aquele que julga estar firme, cuide-se para que não caia. I Co 10:12.
    Muito bom @chicogabriel:disqus.

    • Um versículo super bem aplicado!!! Valeu Lourival!!!

  • Muito bom pessoal! Ótima reflexão! Abraço