À Deriva #14 – Eu fui traída!

No Barquinho janeiro 3, 2015 6

Sim, foi exatamente isso que você ouviu. Eu fui traída, magoada e fiquei irritada demais assim que descobri a verdade. Bem que eu desconfiei de todo aquele peso na testa. Humpf. Quando fui apresentada a ele, eu tinha uma visão pueril. Só percebi seu lado inocente. Bem, eu não posso ser completamente culpada. Ele era lindo. E não digo lindo como esses caras que usam calças mais justas que as mulheres e são aclamados por adolescentes histéricas. O cara era totalmente U-A-U! Tinha um cabelo diferente, digno de comerciais de shampoo. E gostava de animais fofos. Óun. Ele também sabia tocar instrumentos de cordas. Qual menina não pira com um cara bonito que toca violão ou guitarra? Atire a primeira palheta quem discordar. Ele tinha um charme que misturava pureza e o jeito de um cara meio bruto, daqueles que ficam bronzeados porque trabalham fora de escritórios, em contato com a natureza. Acredita que ele era poeta? E não era do tipo chato, que faz rimas óbvias e toscas como “ficar sem teu amor é um terror”. Não, não. Ele era sensível e me ganhava de jeito com aqueles versos tocantes. O cara não era um bom partido. Era um ótimo inteiro! Como não amar? Pra melhorar tudo, ele sabia lutar. E não tinha corpo de um troglodita. Ele usava mais o cérebro que os músculos. Ok, uma pequena pausa pros gritinhos histéricos e suspiros.

Além de todos esses predicados, ele foi escolhido pra ser presidente de uma grande empresa. Ok, vamos recapitular: o cara era lindo, inteligente, charmoso, músico, poeta, sabia lutar e era poderoso. Ah! Esqueci de comentar que ele ajudava nas obras da igreja. Queria aumentar o templo e se ofereceu pra trabalhar no tempo vago. O que mais eu poderia querer? Ter uma casa ampla e cachorros correndo no gramado, ao lado do nosso fusca. Mas (infelizmente, sempre há um “mas” pra cortar o barato), ele ficou em casa um dia. Não sei se estava em alguma rede social ou assistindo algum programa na televisão. Só sei que ele não estava onde deveria. Depois que levantou da cama, resolveu dar uma volta no terraço. Então, ele viu uma mulher no banho. Ao invés de fechar a janela, ele ficou lá olhando, babando, desejando. Que raiva! Quando eu descobri isso, meu mundo virou de pernas pro ar. Ele era tão perfeito… Não tinha motivos pra fazer isso. Pra piorar a situação, ele era muito poderoso e poderia ter a mulher que quisesse. Mandou os empregados atrás dela. Ele nem se importou de saber que ela era casada. Afinal, a mulher era bonita. Por qual razão os homens congelam o cérebro em algumas situações, hein? Só sei que ele juntou um combo pesado: traição, adultério e assassinato.

Não, eu não matei meu queridinho. Isso estava além do meu alcance há muitos séculos. Literalmente. Não que a raiva não me motivasse a isso, claro. Como foi que ele ousou acabar com meus planos? Enfim, o morto foi Urias, o marido da mulher que ele desejou. O pobre finado trabalhava pra ele ainda por cima. Urias era tão fiel que carregou a própria sentença de morte e nem desconfiou de nada, tadinho!

Apesar do erro, ele teve uma boa ideia: basta ler o Salmo 51 pra comprovar. Davi (é, esse é o nome dele. Até o nome é bonito!) pediu perdão pra Deus. Reconheceu tudo o que tinha feito de mau e implorou pra não ser deixado. Ele entendeu que Deus tem uma capacidade de perdão muito além da capacidade dele errar. Ou da capacidade humana de ficar com raiva dos erros alheios. Até hoje tenho o coração quebrado por essa falha. Eu gostava muito mais do Davi do flanelógrafo: puro, corajoso e rodeado de ovelhinhas fofas. Mas, foi o Davi adúltero, traidor e assassino que me mostrou a capacidade do perdão divino. Até hoje, sinto certo incômodo ao pensar que Davi foi um homem segundo o coração de Deus. Lembro de José (lindo, perdoador), Daniel (vegetariano!), Paulo (como não amar aquela dose de autoridade e tapas na cara da sociedade?). E daí? O que eu penso não importa. O importante é que Deus dá mais de “”dez dias sem juros no cheque especial” “na categoria perdão. Graças a Ele! Afinal de contas, dar mancadas é a especialidade de seus filhos amados. Ele foi traído, mas oferece perdão. Basta a gente querer e pedir. Simples assim.

P.S.: Se você for menina e conhece um cara com as virtudes de Davi, saiba que ele é um bom partido. Só tome cuidado com prédios altos e vizinhas que não fecham as janelas do banheiro.

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Texto “Eu fui traída!”: Sara Matins
Interpretação: Zaine Maressa
Edição e masterização:
 Chico Gabriel
Arte da vitrine: Daniel Sas (portfólio)

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  • Fernanda R. Fernandes Piper

    Adorei o texto, parabéns! =)

  • Muito boa a adaptação hehehe
    E o final “cômico” deu o toque especial 😉

    Abraço
    EddieTheDrummer (PADD)

  • Sara 8:)

    Obrigada! ^^

  • Kamila França

    inspirador! o perdão de Deus sempre nos motiva a buscá-lo sabendo que encontraremos graça e misericórdia se realmente contritos e arrependidos.
    Deus abençoe projeto podcast à Deriva <3

  • Luciano Valério

    Muito bom esse A Deriva! Já tinha lido o texto há um tempo atrás e agora que ouvi ele aqui pensei que ele é realmente a cara desse podcast…rs!
    Parabéns l!

  • Rev. Maurício

    poxa, que coisa linda.
    parabéns