Sobre a vida, mulheres e tudo mais

Jaqueline Lima maio 7, 2014 9

Meu nome é Jaqueline Lima. Tenho 23 anos. Sou mulher. Sou cristã.

Todas essas afirmações são muito importantes para que você entenda o que vou dizer desse ponto em diante.

Estamos no meio de uma verdadeira guerra de ideologias quando o assunto é mulher. De um lado, o que a sociedade chama de “feministas” lutam pela apropriação do corpo, pelos direitos iguais, pelo direito de fazer Lulus e dizer o que pensam sobre o corpo dos homens. Do outro, o que a sociedade chama de “conservadores reacionários” que não acreditam que essa seja uma luta tão importante assim, que não existe machismo hoje em dia e que acham que mulheres que se vestem de forma provocativa estão pedindo pelas cantadas chulas e pelo estupro.

Nos debates raivosos de internet, você deve se incluir em uma dessas caixas e lançar comentários fervorosos contra o outro time.

Não me encaixo em nenhuma delas. Vou dizer por que nos próximos parágrafos.

A mulher e seu corpo

O corpo da mulher fazia parte das propriedades do homem. A gente ri com o personagem do José Wilker, mas de fato as mulheres eram usadas. Ranços disso ainda estão por toda parte, inclusive na cabeça de alguns crentes que acham que a submissão feminina é tomar um remédio pra dor de cabeça e “prestar seus serviços”  para o marido quando ele quiser. Talvez por terem sido oprimidas por tanto tempo, hoje as mulheres gritam em alto e bom som que o corpo é delas e elas podem fazer uso dele como bem quiserem. Isso não é insinuação para nenhum ataque masculino. É apenas a mulher dizendo, por meio daquilo que foi reconquistado, que ela é dona de si mesma. “E se quiser transar no primeiro encontro? Que transe! E se quiser sair sem calcinha de mini-saia? Que saia! Se quiser usar moletom o dia todo? Que use! O corpo é seu, mulher! Faça o que quiser!”, dizem.

Meu corpo não é mais só meu. Morri com Cristo e sou sacerdotiza dele na Terra. O que as pessoas veem em mim deve refletir a Sua Glória. Vou usar roupas que evidenciem mais os meus atributos do que aquilo que Ele é em mim? Pelo menos não deveria. Posso transar quando quiser? Não, porque a Palavra dEle não me diz assim. Posso sair com roupas curtíssimas e decotes que irão despertar a líbido de outros homens quando eu sei que a Palavra dEle é clara sobre como isso não deve ser feito? Definitivamente não.

Me preocupo em me portar dessa maneira, mas posso tranquilamente defender a mulher que é acusada de ter provocado homens com seu corpo e por isso foi estuprada. Por mais que eu queira que todas as mulheres do mundo tivessem esses valores elas não têm, só que nem por isso elas não devem ser respeitadas. Respeito, senhores. Respeito. Sejam homens e respondam por seus atos. Controlem seus ~ instintos ~ e não esperem que uma sociedade altamente sexualizada e corrompida coopere com vocês. Ela só vai tornar tudo muito mais difícil, pra homens e pra mulheres.

Sobre o fiu-fiu

Reclamo com frequência dessa prática e acho que o meu argumento aqui é só uma continuação da questão que tratei acima: respeito.

O que espero é que nós não nos tratemos como pedaços de carne que andam por aí. Não me importa muito se a menina em questão se vestiu assim porque gosta de chamar a atenção e quer ser elogiada. A pergunta “como você diferencia quem gosta de cantadas de quem não gosta?” não pode ser respondida a não ser que ela escreva na testa “me cante”. Sendo assim fique com o certo: não cante ninguém. Se interessou pela garota? Converse com ela.

O “elogiada” vem entre uma infinidade de aspas porque o que se ouve na rua está longe de ser um elogio. Eu nunca conheci uma menina que tenha sido abordada com um “bom dia, desculpe-me te incomodar. Sei que não te conheço, mas te achei muito bonita”. A gente ouve coisas humilhantes quando anda sozinha na rua. E numa sociedade extremamente machista, sabe o que eu sinto quando ouço algo muito agressivo? Medo.

Medo de que aquele cara sinta-se no direito de fazer alguma coisa comigo já que, se meu vestido (amo vestidos) estiver um pouco acima do joelho, ele pode entender como um pedido de estupro. Afinal, existe um dress code para não ser estuprada? E digo mais: uma garota pode estar de moletom largo, se um homem quiser cantá-la ele vai.

Nós vivemos com medo. Temos que ouvir grosserias, ir pra casa antes das 22h, receber apalpadas na rua, suar frio quando um carro passa devagar com um sujeito nos dizendo coisas horrendas, esperar o próximo metrô porque a chance de sermos encochadas às 7h da manhã e grande… Tudo isso caladas. Nossa sociedade é doente e só uma mulher que tem que lidar todos os dias com isso sabe como é.

Se você é um garoto cristão e acha que pode fazer brincadeiras com garotas na rua, há um problema com você. Respeite as pessoas, não apenas as mulheres.

Submissão feminina

Até aqui, meu discurso (pra maioria das pessoas) se encaixa no que eles consideram como mais próximo dos ideais feministas.

Pois bem, eu acredito que Deus criou o homem e mulher e a colocou como sua auxiliadora. Acredito que a mulher deve ser submissa ao seu marido. Não sou a favor do pastorado feminino.

A palavra submissão tem sido mal interpretada há muito tempo. Além disso, a gente tem uma geração de homens que aprenderam a “ser machos”. Muita menina viu a mãe ser feita de capacho por gente que não entende o que é a verdadeira submissão. Por crescer nesse ambiente essa ideia soa como extremamente repulsiva pra maior parte delas. Já foi assim pra mim.

Mas, se você crê em Cristo como seu Salvador e acredita na inerrância da Palavra de Deus, eu tenho uma coisa pra te dizer: tá na Bíblia.

Efésios 5: 22-33 é uma bela lição de um princípio bíblico pra todo casamento. Você ouve dos seus amigos os versículos 22, 23 e 24 enquanto eles tiram sarro do fato de que por ser mulher, você está em posição inferior. Isso te irrita.

Continue lendo comigo os versículos seguintes e veja qual o papel do homem nisso tudo:

Maridos, ame cada um a sua mulher, assim como Cristo amou a igreja e entregou-se por ela para santificá-la, tendo-a purificado pelo lavar da água mediante a palavra, e para apresentá-la a si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha nem ruga ou coisa semelhante, mas santa e inculpável. Da mesma forma, os maridos devem amar cada um a sua mulher como a seu próprio corpo. Quem ama sua mulher, ama a si mesmo. Além do mais, ninguém jamais odiou o seu próprio corpo , antes o alimenta e dele cuida, como também Cristo faz com a igreja, pois somos membros do seu corpo. “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e os dois se tornarão uma só carne.” Este é um mistério profundo; refiro-me, porém, a Cristo e à igreja. Portanto, cada um de vocês também ame a sua mulher como a você mesmo, e a mulher trate o marido com todo o respeito.

Com isso, a gente vê como o comprometimento é grande pra ambos os lados. O homem tem que amar e proteger sua mulher como Cristo amou e ama a Igreja! A responsabilidade pende pros dois lados nessa história. Quando você encontra um companheiro que entende isso, não existe aquela submissão pregada por quem não entende o que isso realmente significa. Sem contar que, quando você vê seu marido como um homem de Deus que vai ponderar suas atitudes com a Palavra, não haverá nenhum medo de ser submissa. Não haverá nada mais precioso que o diálogo e a tomada de decisões em conjunto. Se ele te respeitar e te vir como uma mulher que está AO LADO dele, suas opiniões serão consideradas e não há nada como uma ditadura nessa relação. Não deixem que encham sua cabeça com mentiras sobre a verdadeira submissão.

Mulher no mercado de trabalho

Hoje, mulher realizada é aquela que alcança a maior posição possível em sua carreira antes dos 30. “A mulher do século XXI é independente, despreza os homens, é a chefe deles e ganha muito bem pra gastar com o que quiser”, algumas irão dizer.

A mãe, a dona de casa e a menina que não possui tantas ambições no mercado de trabalho são tidas como verdadeiras idiotas. Como desperdiçar a vida cuidando de um filho? “Que babaquice”, diriam as gerentes aos 25.

Nem um, nem outro. Que sejamos aquilo que Deus quer que sejamos. Se você, mãe grávida com trabalho estável tem condições de largar seu emprego e sente que deve fazer isso, faça! Se você gosta de seu trabalho e sabe que glorifica a Deus com ele, continue!

Mas, não deixe essas obrigações sucumbirem sua família. Isso vale para ambos. O homem que negligencia sua casa para trabalhar – mesmo que biblicamente essa responsabilidade seja dele – está cometendo um grande erro. Com a mulher não é diferente: a necessidade de fazer de seu lar um lugar onde Deus habita é de ambos, mesmo que em funções diferentes.

Luta de gêneros

Deus criou homem e mulher. Não importa quão longe vão os tratados filosóficos sobre gênero. Isso é muito claro pra mim.

Não sou a favor de protestos online contra o Kinder Ovo por ter feito um ovo rosa e um azul. Não acho que seja um problema dar uma cozinha de brinquedo para uma menina que gosta de brincar de cozinhar. Mais uma vez, nesse assunto a gente vê uma luta de 8 ou 80 que pra mim não tem muito sentido.

Isso não quer dizer que não acho que temos que dar mais liberdade para o desenvolvimento das pessoas. Uma menina não TEM QUE gostar de rosa, falar fino e usar saias. Um menino não deve ser considerado “afeminado” porque não gosta de futebol. Quando a gente cria caixinhas tão limitadas para seres humanos que podem ser tão diferentes, nós corremos o risco de prejudicar seriamente essas pessoas.

Eu joguei bola, andei de skate, tive (e tenho) amigos homens e não é por isso que sou menos mulher que uma garota que não fala “meo” e não fez nenhuma dessas coisas. Até mesmo porque eu cantei e fiz ballet clássico por anos, pois eu tive a liberdade de explorar meus gostos na minha infância.

Ensinar biblicamente seu filho que existem diferenças de gêneros e que cada um tem sua forma porque assim Deus quis não é o mesmo que vestir a menina de rosa e o menino de azul. Eu posso não ter vivido a maternidade ainda pra saber com certeza como isso deve ser feito (talvez até quem já passou não saiba como dizer), mas eu sei como me sinto quando não me respeitam como uma mulher só por não suprir todas as expectativas da “caixa de mulherzinha”. Definitivamente não é legal.

 

Nós, mulheres, estamos sendo inundadas de opiniões que gritam o título de “melhor pensamento para a mulher no século XXI”. Minha intenção com esse texto não foi escrever um tratado sobre a feminilidade cristã nos dias atuais. São só alguns tópicos que tenho pensado por esses dias.

Como você leu no começo, eu tenho só 23 anos. Tenho muito o que refletir sobre o assunto ainda. Pode ser que minha opinião mude com os anos. Pode ser que ela mude com um comentário crítico/construtivo.

Apesar de eu acreditar piamente que muito do que disse seja o mais coerente, minha maior vontade é que toda menina que ler esse texto pense um pouco sobre essas questões a partir de suas experiências. Que na Palavra de Deus a gente encontre as diretrizes que precisamos para sermos mulheres virtuosas e que não tenhamos medo de pensar sobre tudo que estão jogando na gente nos últimos anos.

Fica aqui meu convite para que você reflita. Concorde, discorde, mas argumente aí dentro de você (depois venha comentar, claro rs).

O importante é entender que homem ou mulher, Deus nos criou! Olhemos pra Ele quando quisermos pensar sobre quem devemos ser.

 

Disclaimer do amor: eu generalizei bastante quando me referi as feministas e aos contrários ao movimento. Minha intenção foi caricaturar os dois extremos. Sei que feminismo não é só sobre Lulus e peitos de fora em protestos. 

  • Fabio Kaiser Sousa

    Essa Garota é mulher macho sim senhor! E sem mimimi! amei a coluna jaque! #parabéns

  • Feminismo é liberdade. E essa liberdade não é só dizer sim,

    mas é poder dizer sim ou não quando a gente bem entender. Se você, assim como
    eu, não quer expor seu corpo ou entende a questão da submissão, que isso seja
    por uma decisão nossa, que seja uma escolha e não uma imposição da sociedade
    que determina o que é coisa de mulher de bem ou não. Ser feminista não
    significa necessariamente pensar ou apoiar isso ou aquilo. Não é livro de
    regras, é uma busca constante por respeito. É complicado equilibrar algumas
    demandas do feminismo com a nossa crença, mas é triste ver a opressão
    acontecendo e não se posicionar contra ela. Eu quero que uma mulher ande na rua
    e não seja atacada por causa da roupa, quero que ela possa escolher a profissão
    e ganhar o mesmo que o homem, quero que ela não seja espancada pelo marido ou
    humilhada pelo patrão. Eu só quero respeito, e isso é ser feminista. Ninguém é
    obrigado a levantar uma bandeira, mas não consigo não me posicionar. O meu
    maior problema em me “assumir” como feminista foi o medo de me tacharem como
    aquela que acha que as mulheres não precisam dos homens, que apóia o aborto,
    que quer ter uma vida sexual livre… mas eu não me importo mais. Eu faço meu
    feminismo, as demandas de cada um são diferentes das dos outros, mas são
    demandas e precisam ser respondidas.

    Já leu esse texto? É simples e me fez entender melhor o
    feminismo.

    http://www.cartacapital.com.br/blogs/feminismo-pra-que/feminismo-para-leigos-3523.html

    Exclui esse outro comentário pra ajeitar umas coisas mas continuar aí 😐

    • Jaqueline Lima

      Pois é, Jussara. Também tenho meus conflitos.
      Como comentei no final eu caricaturei o feminismo como ele é pregado por aí, mas sei que feminismo em sua essência é simplesmente igualdade. Como você disse é a mulher ganhar o mesmo que um homem, ser tratada com respeito e tomar suas decisões.

      Meu ponto aqui é que essa liberdade tem que estar dentro da vontade de Deus. Como cristã, a minha liberdade deve estar nEle, então eu tomo cuidado com o que “eu desejo”, porque sei que teria uma posição bem mais drástica do a que tenho hoje rs

      Tô com esse texto pra ler faz tempo! Obrigada pela indicação 🙂

  • Abner Melanias

    Parabéns @disqus_iWXJPb7Bzj:disqus pelo texto: lucidez e coerência sobram nele.

  • Jean Correa

    Valeu a pena quebrar minha regra pessoal de não ler textos muito grandes em blogs. Valeu muito a pena. É muito interessante ler a opinião de uma mulher, e ainda mais uma cristã, sobre esse tema que está tão na moda. Eu, como homem, não me sinto à vontade pra tratar disso, pra opinar muito. Sinto que não tenho gabarito e experiência, porque observo toda essa coisa de fora, sem viver o que as mulheres têm vivido e que as têm feito se revoltar e reclamar. Quando me deparo com um texto de uma mulher, com tanta lucidez, expondo uma opinião tão bem formada, fico realmente feliz. Parabéns, Jaque.

    • Jaqueline Lima

      Valeu mesmo, Jean! 🙂

  • Rogerio Macedo

    Muito bom esse artigo! Posso compartilhar no Facebook? Há alguns dias atrás, fiz um post a falando sobre o desrespeito dos homens para com as mulheres na sociedade atual. Creio que este texto pode muito bem complementar minha opinião de um ponto de vista feminino.

    • Thiago_Ibrahim

      Claro que pode, Rogerio! 😀

    • Loana

      É muito bom ver homens que entendem, assim como nós, que esse é um tema importante e não frescura de “feminazi”, aliás, odeio esse termo :P.