À Deriva #05 – O Triste Fim

No Barquinho maio 5, 2014 13

O desejo de comer a fruta era quase insuportável. Ele sabia que não devia: era expressamente proibido.
— Mas, é bravo, né? — pensava ele — Que fruta mais deliciosa! E todo mundo come. Normal. Sem um pingo de consciência.
André deu alguns passos em direção à ala de frutas e verduras do supermercado, ainda refletindo sobre aquela fruta bonita e atraente.
— Que motivo Deus tem para me negá-la? É uma coisa tão natural e o desejo vem dentro de mim, do meu íntimo. Parece até que Deus tem prazer em me atormentar. Afinal das contas, foi Ele quem me deu a necessidade de comer e um desejo forte por frutas suculentas.
Sem perceber o que fazia, André se viu novamente de frente da banca com a fruta proibida. Toda célula do seu corpo tremia de vontade por ela.
— Uma vezinha certamente não vai trazer conseqüências muito ruins. É tão comum! Antigamente as pessoas levavam isso a sério. Hoje ninguém nem liga. Até vendem abertamente no supermercado!
Ele hesitou um pouco mais…
— Depois de ver como é, aí eu me arrependo e paro. É uma vez mesmo! Deus é misericordioso. Ele vai entender e me perdoar.
Não podendo mais se conter, André primeiro olhou de um lado para outro e depois pegou uma fruta e pôs no carrinho, tendo o cuidado de colocar outra mercadoria em cima para ninguém ver.
A caminho do caixa e depois do carro, sua imaginação correu solta: como seria gostosa! Ele podia sentir o cheiro doce e imaginar o suco escorrendo pelos cantos da sua boca e melecando suas mãos. Parece que metade do prazer da coisa estava na antecipação.
Uma vez no carro, ele se dirigiu a um lugar isolado, longe de olhos curiosos. Aí abriu a sacola e pegou a fruta. Por um longo minuto, ele segurou-a nas suas mãos, sentindo seu peso e sua textura suave e agradável, como se fosse feita de cera. Sua consciência ainda relutou, valente. Mas, depois de alguns instantes ela perdeu a batalha e se calou. Então, ele comeu…
— Ahhhh! Que delííííííciaaa!!! É melhor ainda que pensei. Nunca imaginei que pudesse ser tão gostosa. Como Deus poderia proibir isto?
André começou a ficar bravo. Alguns minutos mais tarde, porém, o sentimento era outro: uma profunda tristeza, quase um desespero pelo que tinha feito. Parecia que o céu havia fechado e ele estava prestes a ser esbofeteado por ventos, relâmpagos e trovões. Clamaria a Deus, mas temia ser insincero. Então voltou pra casa, deprimido. Só no outro dia conseguiu fazer uma confissão meio sem graça a Deus.
Passaram-se alguns dias e André lutou bravamente contra a tentação de comer novamente. Quando ia ao supermercado, evitava a banca com a fruta, ou, quando não dava, passava rápido, sem olhar.
Mas, lembranças do prazer daquele dia o atordoavam e não demorou muito até se ver mais uma vez diante daquela banca de frutas, travando nova batalha com sua consciência. Desta vez a batalha durou menos tempo e comprou logo a fruta. Depois que comeu, novamente sentiu aquele peso na consciência, mas sabia que a sua resistência estava diminuindo.
E assim foi. Às vezes resistia mais, às vezes menos, mas sempre acabava comendo. Isto o levava a tempos de depressão, tempos que perdia a vontade de fazer qualquer coisa a não ser ficar em casa, no seu quarto. Outras vezes ele justificava o pecado e tentava servir a Deus mesmo assim. Mas,sabia que estava sendo hipócrita e, aos poucos, foi deixando seus ministérios na igreja.
Uma vez ele até fez uma consulta no psicólogo. O psicólogo o convenceu que não devia sentir culpa ao comer. Então passou um tempo defendo a liberdade cristã para comer da fruta. Mas, seu ser já não agüentava mais de exaustão e sequidão interior.
Outra coisa aconteceu despercebido: a fruta começou a perder o seu prazer. André tinha a sensação de uma grande êxtase, mas o fato é que estava lembrando da primeira vez, sempre na expectativa de sentir novamente o que sentiu aquela vez. Mas nunca sentia. Agora ele comia porque não conseguia ficar sem comer.
Eventualmente seu pecado tomou conta de tudo: era o gasto mais alto de cada mês, o prazer que expulsava todos os outros prazeres e o fator que regia seu relacionamento com Deus. Ele se sentia seco, cansado, esgotado e vazio. Depois de muitos anos, ele simplesmente morreu.

_________________________

Texto “O Triste Fim de André Fortunato”: Mark Swedberg
Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
Artes gráficas: Daniel Sas (portfólio)

Tem um texto para o À Deriva? Envie para aderiva@nobarquinho.com

Email: podcast@nobarquinho.com
Twitter: nobarquinho.com/twitter
Facebook: nobarquinho.com/facebook
Google+: nobarquinho.com/g+
Instagram: nobarquinho.com/instagram

Siga os marujos no Twitter: @PedroAngella@thiagoibrahim, @matheusmsoares@baudecronicas@chicone e @sas_.

Assine o nosso feed e receba as atualizações num leitor de RSS / aplicativo para smartphone:
http://feed.nobarquinho.com

Para assinar direto pelo iTunes:
http://itunes.apple.com/br/podcast/no-barquinho/id490144590

Você também pode escutar os podcasts através dos agregadores de podcast! Acesse:
Youtuner:  youtuner.co/channel/nobarquinho.com
Podflix: podflix.com.br/beta/nobarquinho

Para ouvir o podcast no PC clique num dos players abaixo ou faça o download do arquivo para ouvir em seu aparelho mp3/mp4 (Para fazer download clique com o botão direito do mouse em “Download” e “Salvar link como”).

Se preferir, faça o download da versão zipada AQUI.

  • Vivi Ribeiro

    GOSTEIII DA MIXAGEM (achoqueéesseonome) NA VOZ DO CHICO e da trilha … PARABÉNS mensagem para nossa reflexão … #osaláriodopecadoéamorte!

    • Fico muito feliz que tenha gostado, Vivi!!! Me dedico bastante para que cada vez possa trazer a vocês a melhor experiencia de audio. Não vou negar que esse ficou bem aquem do que eu gostaria e de que vocês merecem, mas aguardem que a tendencia é melhorar cada vez mais

  • Juliana Monteiro

    Muito massa! Estava esperando o post com ansiedade, confesso! Rs…parabéns a todos!! Que música é essa no meio mais ou menos? Linda!!!

    • Oi Juliana!!! Não sei se o fato de ter dia marcado para a publicação aumenta ou diminui essa ansiedade que todos tem pois até eu que já vou ouvindo durante a edição fico na ansiedade da publicação para saber a reação de todos vocês a propósta do texto. Que bom que gostou!!!

      A propósito… o nome dessa canção é “Turn your eyes upon Jesus” com interpretação de Alan Jackson

  • Jaqueline Lima

    Digo publicamente que louvo a Deus pela vida de vocês e de todo mundo que contribui pro AD acontecer.

    Uma das coisas que mais gosto no AD é que ele é verdadeiro. As coisas são como são, sem floreios.
    Isso serve pra gente ter consciência da nossa situação. Olhar pra “fruta da nossa vida” e pensar sobre o que estamos fazendo. Talvez, por estarmos imersos em nós mesmos, é preciso que um som de fora nos salve, nos traga de volta pra Deus. Vocês compõem esse som.

    A verdade é que ninguém fica À Deriva se guardar no coração e na mente as mensagens que nos são transmitidas por meio do AD.

    Beijos meninos <3

    • O que vou dizer, Jaques??? Sempre captando muito bem as propóstas e nos incentivando com seus comentarios.

  • Perfeito pessoal. Cada detalhe da dramatização…

    Gosto muito desse (“projeto” de hehehe) podcast porque é sempre um “tapa na cara”. E isso não é ruim; precisamos levar uns tapas na cara diariamente pra acordar pra Vida (que é Cristo). Poderia ter um selo de “Baseado em fatos reais”, e no caso, baseado em “muitas” vidas.

    Vi minhas fortalezas (ou “pecado de estimação”) na casca/embalagem da tal fruta suculenta. Quão difícil é suportar a tentação, principalmente quando achamos que Deus não está vendo nada. Enganamos a nós mesmos, pois Deus está sempre do nosso lado.
    De fato, tudo o que tivemos em algum momento, sentiremos falta ou usaremos como comparação. Afinal, como sentir falta de algo que nunca tivemos?
    Não cheguei ao ponto do André, mas minha vida “antes de Cristo” trás muitas cicatrizes, resultado de ter provado frutas. Por mais que tenha tomado uma decisão, o sentimento de provar tal fruta sempre permanece. E o pior de tudo isso, é comprar a fruta fiado e saber que quem sempre paga por ela é Cristo. Isso é mais triste.

    Ótima reflexão pessoal! Agradeço a Deus por isso. Ele sabe o bem que o À Deriva faz.
    Abraço
    EddieTheDrummer (PADD)

    • Eduardo, “Baseado em muitas Vidas” não exagero nenhum, além do mais como não e identificar com uma verdade tão humana??? Antes de qualquer pessoa eu sou sempre o primeiro a ser atingido assim que recebo o texto para gravar e todas as vezes ao ler eu sempre me deparo em uma reflexão de vida e agradecendo a Deus por tão imensurável amor pela minha vida e peço perdão pelo tanto que sou engrato. Sei que nunca pagarei a tão imensa divida que tenho com ele, só posso me esforçar cada vez mais para dizer não a tantas frutas que me são oferecidas e que como você bem disse, é Ele que paga, ou melhor… já pagou!!!

  • Luciano Valério

    Impossível não se identificar!

    Parabéns pelo ótimo trabalho galera. Muita qualidade e conteúdo a serviço do Reino….Valeu!

    • Obrigado, Luciano!!! A propósta do AD é essa mesmo, fazer com que haja reflexão, com que haja identificação. Feliz demais por ter gostado pelo conteudo e pela qualidade que me esforço cada dia para que melhore

  • Incrível pessoal! E obrigado por indicarem pra eu ouvir. Gostei muito do tema e do áudio drama.

    Valeu, abraços!

    • Igor, bacana, um ouvinte novo!!! Que bom que gostou e que recebeu bem a mensagem. Temos outros episodios que gostaria muito de sua opinião nos comentários e seria bem bacana sua indicação para outras pessoas também para que essa mensagem possa chegar a elas tambem!!!

      Obrigado e volte sempre!!! 🙂