À Deriva #04 – O Encontro

No Barquinho abril 5, 2014 12

Império romano, século primeiro. Este é o maior império que a humanidade já viu. Os territórios se expandem por toda a Europa, passam pela Africa e vão até à Asia. O sol nunca se põe no território Romano.
Há séculos toda a nação de Israel está sob este domínio e sofre com os flagelos desse tempo.
Na organização desta sociedade, as marcas de hierarquia são evidentes e numerosas. Algumas delas, inclusive, vem da cultura judaica.
Entre os judeus, os mais respeitáveis cidadãos são os mestres do templo de Jerusalém. São poucos os sábios que alcançam a honra de fazer parte do Sinédrio. Os conhecimentos destes eram tão vastos como os domínios de Roma.
Entretanto, mesmo com tanto conhecimento acumulado, existe um entre esses mestres que tem passado por crises intelectuais, crises cheias de dúvidas e questionamentos internos.
Um grande sofrimento! Pois ele não pode compartilhar essas questões com seus colegas, eles não aceitariam tanta insegurança e dúvida vindas de um dos principais dos judeus.
Mas essa noite ele encontrou uma oportunidade e tomou uma decisão. Essa noite ele irá sair!
Sentado em seu quarto, deslumbrando pela janela o fim deste dia de chuva, esse é o por do sol mais demorado de toda a sua vida. Suas mãos estão suadas e frias, ele as limpa inultilmente em sua túnica escura.
É noite, hora de partir. A escuridão é sua aliada nesse trajeto. Algumas pessoas o olham e se perguntam quem é, mas seu capuz mantém intacta a sua identidade. As ruas de pedra deste lugar não são muito bem iluminadas, seu segredo está bem guardado.
No caminho ele vai pensando no que vai falar.
Tantas dúvidas… Deus! Ele havia estudado toda a sua vida sobre Deus, mas parece que ultimamente as perguntas se mostram muito mais numerosas que as respostas. Pensa em seu desespero. Desespero tal que o faz visitar um homem sem pompa alguma. Um nazareno que se senta com pecadores e atrai multidões. Um homem sem títulos acadêmicos, mas Nicodemos sente que pode aprender com este mestre.
Suas sandálias e pés já estão molhados e sujos de lama, mas finalmente chegara. Ele hesita ao avistar a porta da casa de destino. Fita os dois lados da rua e entra.
Ali está Jesus, cercado pelos doze. Todos estão tão extasiados com as palavras do Cristo que nem percebem a chegada do ilustre visitante, mas Jesus já o estava esperando e o convida para conversar no segundo andar, onde se sentiria mais a vontade.
Nicodemos respira fundo e diz:
– Rabi, sabemos que o senhor é um mestre que vem de Deus. Ninguém pode fazer estes sinais que você faz, se Deus não for com ele.
Após dizer a introdução que havia preparado, Nicodemos respira mais uma vez. Mas antes que conseguisse expressar sua pergunta, Jesus se adianta dizendo:
– Digo-lhe a verdade: Ninguém pode ver o Reino de Deus, se não nascer de novo.
Nicodemos fica atordoado com essa afirmação.
Sua cabeça está mais confusa que antes. Seus estudos, suas boas obras, seu guardar o sábado, suas ofertas… Não era isso tudo que me levaria ao Reino de Deus? Não serviu de nada?
O fariseu, inquieto, pergunta o que qualquer um de nós perguntaria:
– Nascer de novo… o que significa isso? Como eu poderia voltar ao ventre de minha mãe, sendo adulto?
Nicodemos bem que gostaria de uma segunda chance. Nascer de novo, recomeçar do zero… uma oportunidade muito valiosa. Mas como fazer isso? Ele não consegue enxergar uma maneira racionalmente plausível de ter um recomeço completo como esse!
Jesus, vendo a feição confusa e esperançosa do visitante, responde em amor:
– Digo-lhe a verdade: Ninguém pode entrar no Reino de Deus, se não nascer da água e do Espírito. O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do Espírito é espírito. Não se surpreenda com o que eu disse.
Nesse momento uma brisa fresca do começo da noite entra pela janela e Jesus continua:
– Veja, o vento sopra onde quer. Você o escuta, mas não pode dizer de onde vem nem para onde vai. Assim acontece com todos os nascidos do Espírito.
O sábio mestre da lei olha para o vazio tentando raciocinar. Se encontrara agora na mesma situação dos povos indigenas que viveram a chegada dos primeiros europeus na América.
Diz a lenda que eles não conseguiam enxergar as caravelas que se aproximavam, pois nunca haviam presenciado qualquer coisa parecida.
Nicodemos tampouco viu algo parecido na sua vida.
Tudo que ele havia aprendido até agora dizia: faça, cumpra, realize, justifique-se. Agora Jesus apresentara algo completamente oposto a isso! Nicodemos estava consciente de que nascer não é um ato ativo, ninguém nasce a si mesmo. O sujeito ativo do nascimento são os pais, eles são os responsáveis pela concepção, gestação e o parto.
Nicodemos não entendia com clareza ainda, mas Jesus estava apresentando a missão que veio cumprir. O renascimento espiritual, assim como o natural, não depende de um filho capaz, depende do Pai. Pode o vaso trincado decidir restaurar- se? O Grande Criador é o autor do novo nascimento. Apenas Ele pode decifrar e entender com perfeição todas as imperfeições existentes em cada uma das criaturas.
Nicodemos sai da casa visitada com passos lentos, ele não tem pressa de voltar para seu alojamento. Ainda tem muitas dúvidas, mas algo lhe diz que esta conversa o acompanhará pro resto da vida. Em especial uma frase:
“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”.

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Texto “O Encontro”: Daniel Seixas
Gravação, edição e masterização do áudio: Chico Gabriel
Vozes adicionais: Pedro Angella e Lucas Teles
Artes gráficas: Daniel Sas (portfólio)

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  • Ótima dramatização desse trecho pessoal. Parabéns.
    Compartilhando já para que mais pessoas possam ser agraciadas com essa mensagem.

    Abraço!
    EddieTheDrummer (PADD)

    • Chico Gabriel

      Valeu Du!!! A idéia é essa o compartilhamento das boas novas!!!

  • Amanda S. Vilhagra

    A Melhor história até agora! Ficou ótimo!

    • Chico Gabriel

      Que bom que gostou, Amanda!!! A idéia é fazer sempre o melhor para que o Reino de Deus seja cada vez melhor representado!!!

  • Fernanda R. Fernandes Piper

    Quantas coisas durante a nossa vida nós não entendemos com clareza?!
    De fato, quando nos encontramos com Ele somos apresentados a uma segunda chance, uma nova perspectiva de vida, o nascer de novo…
    A forma como esse texto foi exposto e dramatizado, achei brilhante! Gostei particularmente da compreensão que “O sujeito ativo do nascimento são os pais, eles são os responsáveis pela concepção, gestação e o parto.”, pois eu nunca tinha pensado nisso.
    Pra variar, estão de parabéns! =)

    • Chico Gabriel

      Fernanda, seu comentário mostra que estamos indo para o lugar certo. Como diz o slogan desse “projeto de podcast”… Histórias para ouvir e pensar… As vezes apenas ouvimos e não pensamos, estamos acostumados a recebermos coisas mastigadas sem necessidade de uma maior reflexão. O AD possui uma idéia de levar as pessoas a refletirem acerca daquilo que está ouvindo, força as pessoas a pensarem por si mesmas. Confesso que esse mês ele foi um pouco mais discertivo pois o texto pedia isso por se tratar de uma história mais conhecida e sobre o novo nascimento isso é um processo diário de transformação onde cada momento que conhecemos mais de Jesus, algo em nossa vida muda, algo se conserta, algo se transforma, algo renasce.

      • “…isso é um processo diário de transformação onde cada momento que conhecemos mais de Jesus, algo em nossa vida muda, algo se conserta, algo se transforma, algo renasce.”

        Amém!

  • João Lucas dos Santos

    Muito bom! Será que eu consigo escrever um texto para o “à deriva”?

    Att,

    • Chico Gabriel

      Valeu Jão!!! Estou aguardando seu texto!!!

  • Daniel Seixas

    Muito legal a dramatização! Gostei de participar desse projeto de podcast. =)

    • Chico Gabriel

      Texto excelente, Daniel!!! Aguardando ansioso por novos textos seus!!! Parabéns mesmo, eu fico feliz de ter a honra de gravar coisas boas assim!!!

  • Ricardo Soares

    belo trabalho