Mera hipótese

Thiago André Monteiro maio 13, 2013 5

J.J.

O dia 10 de novembro de 2009 entardecia como qualquer outro. Depois de um dia na labuta, voltava para casa exausto, porém com a sensação de dever cumprido por mais um dia bem sucedido no escritório.

Seguia na rotina diária de enfrentar o trânsito caótico da capital num dos principais e mais engarrafados corredores da cidade. Naquele dia parecia que o caos estava maior que o de costume, mas isso não incomodava, pois não planejava que esta fosse uma noite comum. — De fato, a noite poderia ser classificada como qualquer outra coisa, exceto comum, como vocês poderão constatar. O que ninguém poderia esperar é que fosse um incomum tão diferente.

Na mente pecadora um plano já estava sendo desenhado em seus detalhes. Era casado há poucos anos, ainda sem filhos, e continuava apaixonado pela esposa. Mas naquela noite, depois de muito tempo, passaria a noite sozinho em casa. A esposa viajara a trabalho. Em meio aos faróis acesos, pedestres atravessando as ruas fora das faixas, motos loucas cruzando irresponsavelmente os carros e buzinas para todos os gostos, o plano era detalhado e aperfeiçoado cada vez mais.

A noite sozinho em casa prometia. Sem a presença da esposa estaria livre para gastar horas se deleitando com pornografia, como há muito não fazia. Mas a mente não planejava tranquila. Sendo cristão, sabia que o que estava para fazer só tinha um nome: pecado! Mas era daqueles pecados gostosos que a gente racionaliza, fingindo até mesmo que, por um breve momento, Deus não existe de fato.

A vontade mesmo era procurar os serviços de uma mulher de verdade, dessas do ramo; mas não tinha coragem. Sabia que isso seria adultério, e, sendo assim, uma questão muito mais séria; impossível de se conviver. É verdade que constantemente lembrava de Mateus 5, onde o próprio Jesus ensinava que o simples olhar para outra mulher com segundas intenções já era considerado por Deus como um adultério consumado. Mas quando o homem decide racionalizar o pecado, essas coisas não são levadas em conta.

Diante da batalha interna entre o Espírito Santo e a natureza pecaminosa humana, eis que surgiu uma oração. Por uma fagulha de tempo Deus deixou de ser aquela mera hipótese na mente e ganhou o espaço que lhe era devido desde o início.

— Deus, você mesmo disse em 1 Coríntios 10.13: “Não vos sobreveio tentação que não fosse humana; mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além das vossas forças; pelo contrário, juntamente com a tentação, vos proverá livramento, de sorte que a possais suportar.“. Pois bem, você está vendo aqui que estou planejando pecar contra você e preciso de sua ajuda para não seguir adiante. Se você existe mesmo, por favor, se mostre de maneira evidente e promova este livramento que você prometeu.

Eis então que o milagre aconteceu; e imediatamente. Antes de ter a chance de dizer “amém”, todas as luzes daquela avenida cercada de prédios se apagaram! Impressionante! Nunca, em toda a caminhada cristã, sonhara que viveria uma experiência tão intensa. Mas seria mesmo um milagre? A princípio ainda cogitava uma coincidência, mas que coincidência era aquela? Afinal, Deus registrara uma promessa na Bíblia e a oração feita pedia justamente para que Ele a cumprisse. Mas entenda bem o dilema que agia na mente humana deste pecador: em menos de um segundo, Deus passou de uma hipótese improvável a uma presença quase palpável.

Conforme o carro seguia para casa, ainda completamente perplexo com aquilo, notava que o blecaute não era local, mas parecia não ter fim. Os bairros passavam e a escuridão continuava. — Será que em casa também falta energia? — pensava.

Sim. Na verdade a energia elétrica caíra não somente nos bairros próximos, nem ao menos na cidade inteira, mas em quase 20 estados brasileiros (na verdade, ele ultrapassou até mesmo as fronteiras nacionais) e ninguém conseguia explicar o motivo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Blecaute_no_Brasil_e_Paraguai_em_2009). Quero dizer, quase ninguém, pois alguém nesta história sabia exatamente o porquê aquilo acontecera.

Ao perceber o tamanho da resposta divina, uma oração de humilhação e gratidão foi surgindo. — Obrigado, Deus, por se mostrar de maneira tão evidente a este miserável pecador que não merece a sua misericórdia. — Este foi o pensamento que dominou a mente até que o sono chegasse, mas não antes de algumas horas de extasiada reflexão a respeito do que acontecera.

Por fim a calmaria chegou e, assim com acontecera com os hebreus depois da milagrosa travessia do Mar Vermelho, o êxtase deu lugar à mesmice da vida e Deus novamente perdeu o seu espaço, voltando a ser tratado como uma mera hipótese. Tanto que naquela mesma manhã, aproveitando a ausência da esposa em casa e o retorno da energia elétrica, alguém se deleitou algumas horas com pornografia até notar que já se atrasava para o trabalho.

S.D.G.

Thiago André Monteiro
(veja mais no Baú de Crônicas)